VOLUME I - SOB A LUA DE RAGNAR
Prólogo
-Elfo, quanto tempo falta para
chegarmos?
-Menos do que eu gostaria, não sente o
cheiro?
-Só de mato e bosta de cavalo, em
Tamu-ra isto queria dizer longe das cidades.
O elfo é conhecido como Erudhir
Stalkingwolf, longos cabelos loiros, penetrantes olhos de um profundo azul índigo,
pouco comum mesmo entre os de sua raça. Sua armadura de peles e o arco curto
velho explicitam a falta de recursos. Ao seu lado caminha um humano de pele
queimada do sol, olhos estreitos, cabelos pretos amarrados em um coque no alto da
cabeça, o corpo forte e alto coberto por uma brunea limpa e puída, na cintura,
do lado direito, duas espadas de aparência imponente. Atrás dos dois um humano
anda cabisbaixo, alto, forte e atlético, cabelos castanhos escuros e olhos da
mesma cor, uma armadura semelhante a do outro guerreiro, porém mais vezes
danificada e consertada, na cintura uma espada longa. Os três caminham por uma
estrada larga e pavimentada, algo não muito comum em Petrynia. Nas margens se
fazem notar fazendas com plantações, alguns homens e mulheres arando e cuidando
de animais, o sino de uma carroça cheia de frutas, verduras e queijo pede passagem
ao grupo.
-Erudhir, talvez ele tenha algum
problema, desde que nos conhecemos, contando nossa conversa e posterior acordo,
não acho que ele disse mais de dez palavras. E estou contando quando ele nos
disse o próprio nome.
-Nem todos os seres são eloquentes,
bom samurai. Algumas criaturas têm sua vida no silêncio e esta também é a forma
de agir da natureza, de Allihanna. Do mugir do gado que produz a bosta que
tanto lhe aflige nas estradas do continente, ao silêncio de nosso amigo
paladino.
-Um homem deve se expressar! Ele age como
uma mulher! E que tipo de nome é Eld? – desta vez o samurai parou em frente ao
homem, olhos nos olhos – Tu não tens um fio de barba, és um homem mesmo?
-... – respondeu o paladino.
-Chamei-te de mulher e apenas te
calas? – provocou o samurai.
-Deixe o sujeito, Tomoe. Homem,
mulher, qual diferença faz?
-Se nos engana quanto ao próprio sexo,
imagine o que mais esconde – provocou novamente o samurai, olhando o paladino
pelo canto dos olhos.
-Khalmyr não vê a mentira com bons
olhos, samurai – disse Eld – além disto de onde venho não é a barba que diz
quem é ou não homem, você deve olhar em outro lugar.
Erudhir riu e passou o braço direito
sobre os ombros de Tomoe.
-Meu caro e rígido amigo, você poderia
dormir esta noite sem ter ouvido isso. Vamos, veja, aqueles são os muros da
cidade! Venha, Eld, vamos para a tal cidade que você diz ser um ótimo início
para uma busca.
-E é – confirmou o paladino de
Khalmyr.
-Estás falante, já dobraste o número
de palavras em nossa presença, logo serás um orador – riu Tomoe, dando dois
tapinhas no peito de Eld – Sem ressentimentos, paladino, gosto do teu deus, não
deves ser má pessoa.
-Acho que foi um elogio, Eld – disse
Erudhir.
Os três caminharam mais alguns metros,
viraram à esquerda em um pequeno grupo de árvores e lá estava o portão da
cidade.
Erudhir deu um passo à frente.
-Então essa é Malpetrim. Não é a mais
bonita cidade humana que vi, nem a mais cheirosa, tão pouco a mais organizada,
mas vamos nessa.
Tomoe cutucou Eld.
-Acho que foi um elogio, Eld. Agora é
conosco, o clérigo de nada valerá lá dentro.
Eld deu de ombros, manteve o passo e
seguiu atrás dos dois companheiros. Acima deles, observou, algumas nuvens
navegavam pelo azul do céu, escondendo Azgher e criando uma repentina e
refrescante sombra. O dia estava bonito, as nuvens se alinhavam sobre a cidade,
perfeitamente simétricas. Ele sorriu; se acreditasse em superstições pensaria
que Khalmyr o guiara até ali.
*****
Arton é um mundo de muitas raças,
dentre elas a mais numerosa é a humana. Os humanos foram criados por Valkaria,
a deusa da ambição, que lhes incrustou esse sentimento profundamente nos
corações. Os humanos têm a bênção da deusa, sempre buscando mais, ao mesmo
tempo é sua maldição, jamais estando satisfeitos. O que talvez explique o
enorme número de cidades humanas. Malpetrim é uma destas cidades, localizada em
Petrynia, na costa oeste do Reinado, que consiste, basicamente, em um
aglomerado de reinos que tentam, sempre que possível, não atacar um ao outro
gerando guerras e destruição. Não que isto preocupe os moradores de Malpetrim,
pois esta é uma cidade diferente em um reino diferente. Petrynia é
possivelmente o reino com o maior número de boatos e lendas de todo o Reinado,
mas é em Malpetrim onde as lendas alcançam outro patamar, elas se tornam reais.
A cidade foi e é palco de momentos decisivos da história de Arton, lar de
heróis e aventureiros. Qualquer novato que procure fazer nome sabe que o
dinheiro está em Valkaria, em Vectora, mas as oportunidades? Ora, Malpetrim.
Todavia não só de heróis, aventuras e
histórias se faz uma cidade. Toda esta movimentação acabou, com o tempo,
gerando uma série de oportunidades para o comércio e a vila de Malpetrim, que
não passava de um povoado de pescadores, onde fazendeiros locais vinham fazer
negócio, cresceu para se tornar a cidade de Malpetrim, famosa em todo o
Reinado. A fama fez mais do que trazer aventureiros e comerciantes, fez crescer
uma pequena feira que ocorria todo ano, onde plantadores de trigo trocavam sua
plantação por algumas galinhas, vacas e talvez um trobo para arar a terra. E
quando nossos três amigos passam pelos portões, eles também adentram à
mundialmente conhecida Grande Feira de
Malpetrim, o melhor lugar do mundo para se começar uma boa aventura.
*****
Apesar do rosto jovial, ele já caminha
neste mundo há mais de dois séculos. Ainda assim não tinha, até então, visitado
a Grande Feira. Por onde passa é inevitável que chame a atenção. Alto, magro, orelhas
pontudas, olhos azuis claros, longos cabelos prateados soltos sobre uma túnica
de um verde quase negro, na mão um cajado.
-DROGA, OLHA POR ONDE ANDA, SEU MERDA!
– gritou alguém abaixo, logo ao seu lado – JOGA A PORRA DE UM RAIO NESSE
INFELIZ, BAIN! AINDA BEM QUE USO SAPATOS!
O homem ofendido olhou para baixo,
surpreso com o vocabulário de uma criança.
-Isso não é coisa para uma menininha
falar, menininha...
Foi, porém, interrompido por um chute
na canela.
-Agradeço pelo menininha, mas já sou uma moça – disse uma halfling, cabelos tão
negros quanto os olhos, não mais de noventa centímetros, corselete de couro,
calça de couro, duas pequenas adagas. E sapatos.
-Lili, por Wynna e Marah, ande atrás
de mim! Deste jeito você será pisada por cada habitante e cada habitante será
ofendido por essa sua boca suja. Há vinte metros atrás uma criança pisou em
você! E não xingue as pessoas na rua, não quero arrumar problemas!
-Não vou ficar atrás da sua saia!
Vamos ali na taverna e você usa aquele raio de fogo para esquentar a comida,
aqui comem tudo frio, é um horror. Não que a comida daqui seja boa, mas alguns
pratos têm temperaturas ideais para apreciação. Em Hongari gente foi exilada
por menos.
-Magia não serve para esquentar comida
– salientou Bain.
-Desconheço uso mais nobre – retrucou
Lili.
-Então seu conhecimento acerca do
mundo, das coisas e tudo mais é parco, pobre, limítrofe e me solidarizo aqui
com a pujança de sua ignorância, cara.
-Eu sei que você me ofendeu. E você
sabe que fica sem a sacola de dinheiro se não esquentar minha comida. Esta
conversa é inútil. Seja mais prático, Bain. Eu sei, você sabe, em meia hora
você vai estar fingindo que não fez nada e eu estarei comendo carne quente com
queijo macio e cremoso.
Bain não argumentou, não adiantava.
Ele sorriu e procurou uma taverna limpa. Uma tarefa difícil em uma cidade
portuária. E Malpetrim era uma cidade portuária com uma Grande Feira. Uma
cidade portuária com uma Grande Feira que recebia piratas com regularidade. Uma
cidade portuária com uma Grande Feira que recebia piratas com regularidade e
era lar de aventureiros em tempo integral.
Lili fez Bain não ser muito exigente
depois da procura já durar uma hora. Eles entraram, procuraram uma mesa longe
da confusão e fizeram o pedido, que foi entregue frio.
-Depois de comer vou trabalhar um
pouco, procurar informação. Você sabe – esclareceu Lili.
-Na verdade prefiro não saber – disse
Bain enquanto esquentava um pedaço de carne para a halfling.
-Tanto faz. Aqui ao anoitecer? –
indagou ela.
-Não pretendo sair daqui até lá,
comprei um livro e esta taverna é suficientemente calma para que eu leia.
-A Grande Feira está lá fora e você
vai ler um livro? – perguntou Lili, braços apoiados na cintura.
-A Tormenta chegou em Arton e pessoas
se preocupam com queijo cremoso e carne quentinha – desafiou o feiticeiro.
-Não entendi seu ponto. Faz parecer
que queijo cremoso e carne não são importantes.
-Só pega a carne, Lili, só pega a
carne – disse Bain, olhos mirando o teto da taverna em contemplativo desespero.
Ilustração de Amanda Mattos Della Lucia

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