segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sob a Lua de Ragnar | Prólogo | Parte 1

VOLUME I - SOB A LUA DE RAGNAR

Prólogo




-Elfo, quanto tempo falta para chegarmos?
-Menos do que eu gostaria, não sente o cheiro?
-Só de mato e bosta de cavalo, em Tamu-ra isto queria dizer longe das cidades.
O elfo é conhecido como Erudhir Stalkingwolf, longos cabelos loiros, penetrantes olhos de um profundo azul índigo, pouco comum mesmo entre os de sua raça. Sua armadura de peles e o arco curto velho explicitam a falta de recursos. Ao seu lado caminha um humano de pele queimada do sol, olhos estreitos, cabelos pretos amarrados em um coque no alto da cabeça, o corpo forte e alto coberto por uma brunea limpa e puída, na cintura, do lado direito, duas espadas de aparência imponente. Atrás dos dois um humano anda cabisbaixo, alto, forte e atlético, cabelos castanhos escuros e olhos da mesma cor, uma armadura semelhante a do outro guerreiro, porém mais vezes danificada e consertada, na cintura uma espada longa. Os três caminham por uma estrada larga e pavimentada, algo não muito comum em Petrynia. Nas margens se fazem notar fazendas com plantações, alguns homens e mulheres arando e cuidando de animais, o sino de uma carroça cheia de frutas, verduras e queijo pede passagem ao grupo.
-Erudhir, talvez ele tenha algum problema, desde que nos conhecemos, contando nossa conversa e posterior acordo, não acho que ele disse mais de dez palavras. E estou contando quando ele nos disse o próprio nome.
-Nem todos os seres são eloquentes, bom samurai. Algumas criaturas têm sua vida no silêncio e esta também é a forma de agir da natureza, de Allihanna. Do mugir do gado que produz a bosta que tanto lhe aflige nas estradas do continente, ao silêncio de nosso amigo paladino.
-Um homem deve se expressar! Ele age como uma mulher! E que tipo de nome é Eld? – desta vez o samurai parou em frente ao homem, olhos nos olhos – Tu não tens um fio de barba, és um homem mesmo?
-... – respondeu o paladino.
-Chamei-te de mulher e apenas te calas? – provocou o samurai.
-Deixe o sujeito, Tomoe. Homem, mulher, qual diferença faz?
-Se nos engana quanto ao próprio sexo, imagine o que mais esconde – provocou novamente o samurai, olhando o paladino pelo canto dos olhos.
-Khalmyr não vê a mentira com bons olhos, samurai – disse Eld – além disto de onde venho não é a barba que diz quem é ou não homem, você deve olhar em outro lugar.
Erudhir riu e passou o braço direito sobre os ombros de Tomoe.
-Meu caro e rígido amigo, você poderia dormir esta noite sem ter ouvido isso. Vamos, veja, aqueles são os muros da cidade! Venha, Eld, vamos para a tal cidade que você diz ser um ótimo início para uma busca.
-E é – confirmou o paladino de Khalmyr.
-Estás falante, já dobraste o número de palavras em nossa presença, logo serás um orador – riu Tomoe, dando dois tapinhas no peito de Eld – Sem ressentimentos, paladino, gosto do teu deus, não deves ser má pessoa.
-Acho que foi um elogio, Eld – disse Erudhir.
Os três caminharam mais alguns metros, viraram à esquerda em um pequeno grupo de árvores e lá estava o portão da cidade.
Erudhir deu um passo à frente.
-Então essa é Malpetrim. Não é a mais bonita cidade humana que vi, nem a mais cheirosa, tão pouco a mais organizada, mas vamos nessa.
Tomoe cutucou Eld.
-Acho que foi um elogio, Eld. Agora é conosco, o clérigo de nada valerá lá dentro.
Eld deu de ombros, manteve o passo e seguiu atrás dos dois companheiros. Acima deles, observou, algumas nuvens navegavam pelo azul do céu, escondendo Azgher e criando uma repentina e refrescante sombra. O dia estava bonito, as nuvens se alinhavam sobre a cidade, perfeitamente simétricas. Ele sorriu; se acreditasse em superstições pensaria que Khalmyr o guiara até ali.

*****

Arton é um mundo de muitas raças, dentre elas a mais numerosa é a humana. Os humanos foram criados por Valkaria, a deusa da ambição, que lhes incrustou esse sentimento profundamente nos corações. Os humanos têm a bênção da deusa, sempre buscando mais, ao mesmo tempo é sua maldição, jamais estando satisfeitos. O que talvez explique o enorme número de cidades humanas. Malpetrim é uma destas cidades, localizada em Petrynia, na costa oeste do Reinado, que consiste, basicamente, em um aglomerado de reinos que tentam, sempre que possível, não atacar um ao outro gerando guerras e destruição. Não que isto preocupe os moradores de Malpetrim, pois esta é uma cidade diferente em um reino diferente. Petrynia é possivelmente o reino com o maior número de boatos e lendas de todo o Reinado, mas é em Malpetrim onde as lendas alcançam outro patamar, elas se tornam reais. A cidade foi e é palco de momentos decisivos da história de Arton, lar de heróis e aventureiros. Qualquer novato que procure fazer nome sabe que o dinheiro está em Valkaria, em Vectora, mas as oportunidades? Ora, Malpetrim.
Todavia não só de heróis, aventuras e histórias se faz uma cidade. Toda esta movimentação acabou, com o tempo, gerando uma série de oportunidades para o comércio e a vila de Malpetrim, que não passava de um povoado de pescadores, onde fazendeiros locais vinham fazer negócio, cresceu para se tornar a cidade de Malpetrim, famosa em todo o Reinado. A fama fez mais do que trazer aventureiros e comerciantes, fez crescer uma pequena feira que ocorria todo ano, onde plantadores de trigo trocavam sua plantação por algumas galinhas, vacas e talvez um trobo para arar a terra. E quando nossos três amigos passam pelos portões, eles também adentram à mundialmente conhecida Grande Feira de Malpetrim, o melhor lugar do mundo para se começar uma boa aventura.

*****

Apesar do rosto jovial, ele já caminha neste mundo há mais de dois séculos. Ainda assim não tinha, até então, visitado a Grande Feira. Por onde passa é inevitável que chame a atenção. Alto, magro, orelhas pontudas, olhos azuis claros, longos cabelos prateados soltos sobre uma túnica de um verde quase negro, na mão um cajado.
-DROGA, OLHA POR ONDE ANDA, SEU MERDA! – gritou alguém abaixo, logo ao seu lado – JOGA A PORRA DE UM RAIO NESSE INFELIZ, BAIN! AINDA BEM QUE USO SAPATOS!
O homem ofendido olhou para baixo, surpreso com o vocabulário de uma criança.
-Isso não é coisa para uma menininha falar, menininha...
Foi, porém, interrompido por um chute na canela.
-Agradeço pelo menininha, mas já sou uma moça – disse uma halfling, cabelos tão negros quanto os olhos, não mais de noventa centímetros, corselete de couro, calça de couro, duas pequenas adagas. E sapatos.
-Lili, por Wynna e Marah, ande atrás de mim! Deste jeito você será pisada por cada habitante e cada habitante será ofendido por essa sua boca suja. Há vinte metros atrás uma criança pisou em você! E não xingue as pessoas na rua, não quero arrumar problemas!
-Não vou ficar atrás da sua saia! Vamos ali na taverna e você usa aquele raio de fogo para esquentar a comida, aqui comem tudo frio, é um horror. Não que a comida daqui seja boa, mas alguns pratos têm temperaturas ideais para apreciação. Em Hongari gente foi exilada por menos.
-Magia não serve para esquentar comida – salientou Bain.
-Desconheço uso mais nobre – retrucou Lili.
-Então seu conhecimento acerca do mundo, das coisas e tudo mais é parco, pobre, limítrofe e me solidarizo aqui com a pujança de sua ignorância, cara.
-Eu sei que você me ofendeu. E você sabe que fica sem a sacola de dinheiro se não esquentar minha comida. Esta conversa é inútil. Seja mais prático, Bain. Eu sei, você sabe, em meia hora você vai estar fingindo que não fez nada e eu estarei comendo carne quente com queijo macio e cremoso.
Bain não argumentou, não adiantava. Ele sorriu e procurou uma taverna limpa. Uma tarefa difícil em uma cidade portuária. E Malpetrim era uma cidade portuária com uma Grande Feira. Uma cidade portuária com uma Grande Feira que recebia piratas com regularidade. Uma cidade portuária com uma Grande Feira que recebia piratas com regularidade e era lar de aventureiros em tempo integral.
Lili fez Bain não ser muito exigente depois da procura já durar uma hora. Eles entraram, procuraram uma mesa longe da confusão e fizeram o pedido, que foi entregue frio.
-Depois de comer vou trabalhar um pouco, procurar informação. Você sabe – esclareceu Lili.
-Na verdade prefiro não saber – disse Bain enquanto esquentava um pedaço de carne para a halfling.
-Tanto faz. Aqui ao anoitecer? – indagou ela.
-Não pretendo sair daqui até lá, comprei um livro e esta taverna é suficientemente calma para que eu leia.
-A Grande Feira está lá fora e você vai ler um livro? – perguntou Lili, braços apoiados na cintura.
-A Tormenta chegou em Arton e pessoas se preocupam com queijo cremoso e carne quentinha – desafiou o feiticeiro.
-Não entendi seu ponto. Faz parecer que queijo cremoso e carne não são importantes.
-Só pega a carne, Lili, só pega a carne – disse Bain, olhos mirando o teto da taverna em contemplativo desespero.





Ilustração de Amanda Mattos Della Lucia

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