sábado, 8 de setembro de 2012

O dia em que tudo quase mudou



Seis horas e seis minutos. Descontados seis minutos de tolerância. Eficiência e retidão sempre foram importantes para Cássio. Desligou o computador, cobriu mouse, teclado e monitor com protetores, fechou as gavetas, uma, duas voltas na chave. Levantou. Sem olhar estendeu a mão para a direita, agarrou a alça da pasta e com um movimento limpo colocou-a sobre a cadeira. Abriu o zíper, retirou um livro de uma das divisórias, da mesa apanhou alguns maços de papel que cuidadosamente acomodou na pasta, recolocando, em seguida, o livro, de modo que não amassasse os papéis, fechou o zíper, levantou a pequena mala e posicionou a cadeira junto da mesa. Girou nos calcanhares, riu um sorriso de satisfação e abriu a porta do escritório, atravessou, fechou, uma, duas voltas. Saindo pelo corredor passou por Ester, Fábio e Elíade, da contabilidade, sorriu e balançou a cabeça para cada um, Ester não correspondeu. Virou para a direita no corredor, depois à esquerda, mais uma vez à esquerda, parou na frente do elevador. Cássio olhou desconfiado, não havia ninguém. Era o horário de saída, mas só ele estava ali, cotovelos deveriam estar lhe acertando na altura dos rins, um sorriso ou outro desferido para dizer que não doeu. Nada.

Cássio podia sentir as costas úmidas, a camisa grudava, as mãos suavam. Segurou a pasta de modo mais firme, o elevador demorava. Havia uma pressão em sua nuca, como se alguém há muito lhe observasse e julgasse, a pele quase queimava. Jogou os olhos por cima do ombro esquerdo, do direito, nada. Riu um riso bobo. O elevador não chegara, nem ninguém. Olhou o relógio, seis e onze. Ninguém, nada. Havia algo errado. Olhou para o vaso próximo da mão que segurava a pasta, ele estava ali ontem? Não conseguia lembrar. A luz parecia diferente, mais fraca, mais amarela. Mais uma vez jogou os olhos por cima do ombro esquerdo, então o direito. Riu um riso. Sentiu o coração bater forte. Abriu a pasta e pegou um pequeno frasco. Um, dois, três comprimidos, mastigou e engoliu. Olhou o relógio, seis e treze. Algo definitivamente estava errado.

Deu meia volta para a esquerda, caminhou alguns passos reticentes. Ninguém. As luzes piscaram. Nada bom. Novamente a sensação, havia alguém ali. Certamente alguém o observava, alguém estava perto, muito perto. A pasta pesou, passou-a para a outra mão e percebeu que não fechara o zíper. Fechou. As meias patinavam dentro dos sapatos, o colarinho estava encharcado. Cássio teve um pequeno calafrio. Desta vez se virou completamente para trás, avistou um vulto. Olhou-o diretamente apenas para vê-lo sumir diante dos olhos. Calma. Mantenha a calma. Repetiu o mantra por alguns segundos. Olhou para o relógio, seis e dezessete. Lá na frente, próximo de onde ficava sua sala pode ouvir alguns sons. Lembrou de Ester, Fábio e Elíade, os três passaram por ele e seguiram naquela direção. Nunca trocara qualquer palavra com qualquer um, mas a situação lhe impelia. Deu alguns passos vagarosos, virou a esquerda, depois a direita, já podia ver sua sala. Um, dois passos. Então tudo ficou escuro. No fim do corredor uma luz por baixo da porta, podia ouvir passos pesados vindos das escadas, ao lado do elevador. Suspirou nervosamente. Uma vez, duas, três, quatro... não eram suspiros, sua respiração estava acelerada. Sentiu uma leve tontura. Por que aquilo estava acontecendo? Ele só queria ir para casa, tomar um banho, jantar, assistir dois capítulos de sua série favorita, ler quinze páginas do livro da vez, arrumar as coisas para amanhã e dormir.

Ouviu uma porta abrir atrás de si, reconheceu o barulho como sendo a da escada. Passos apressados iam na sua direção. Breve pânico. Andou em direção ao final do corredor, para a porta com uma leve luz amarela, ouvia um burburinho agora. Entrou.

Na mesa um bolo de aniversário, nas cadeiras vários pares de olhos lhe olhavam. Entendeu tudo. Pediu desculpas e saiu. No corredor ainda conseguiu ouvir “Poxa, que chato, como ele descobriu?”, “Que cara chato, quem avisou da festa da Ester?”. Cássio sorriu um sorriso de alegria, um boicote, uma rejeição. A vida caminhava normalmente. Girou nos calcanhares e virou à direita, depois à esquerda e mais uma vez à esquerda. Viu um vulto. Sorriu um sorriso de deboche e o ultrapassou. Ouviu dois estalos e sentiu uma breve dor, primeiro nas costas, depois na nuca. Sentiu um líquido quente cobrir suas roupas. A visão nublou, a respiração falhava. Sorriu um sorriso de ironia e assim ficou, até Ester o encontrar. Ela não compartilhou o sorriso mais uma vez.

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