Seis horas e seis minutos. Descontados seis minutos de tolerância. Eficiência
e retidão sempre foram importantes para Cássio. Desligou o computador, cobriu mouse,
teclado e monitor com protetores, fechou as gavetas, uma, duas voltas na chave.
Levantou. Sem olhar estendeu a mão para a direita, agarrou a alça da pasta e
com um movimento limpo colocou-a sobre a cadeira. Abriu o zíper, retirou um livro
de uma das divisórias, da mesa apanhou alguns maços de papel que cuidadosamente
acomodou na pasta, recolocando, em seguida, o livro, de modo que não amassasse os papéis, fechou o
zíper, levantou a pequena mala e posicionou a cadeira junto da mesa. Girou nos
calcanhares, riu um sorriso de satisfação e abriu a porta do escritório,
atravessou, fechou, uma, duas voltas. Saindo pelo corredor passou por Ester, Fábio
e Elíade, da contabilidade, sorriu e balançou a cabeça para cada um, Ester não
correspondeu. Virou para a direita no corredor, depois à esquerda, mais uma vez à
esquerda, parou na frente do elevador. Cássio olhou desconfiado, não havia ninguém. Era
o horário de saída, mas só ele estava ali, cotovelos deveriam estar lhe acertando
na altura dos rins, um sorriso ou outro desferido para dizer que não doeu.
Nada.
Cássio podia sentir as costas úmidas, a camisa grudava, as
mãos suavam. Segurou a pasta de modo mais firme, o elevador demorava. Havia uma
pressão em sua nuca, como se alguém há muito lhe observasse e julgasse, a pele
quase queimava. Jogou os olhos por cima do ombro esquerdo, do direito, nada.
Riu um riso bobo. O elevador não chegara, nem ninguém. Olhou o relógio, seis e
onze. Ninguém, nada. Havia algo errado. Olhou para o vaso próximo da mão que
segurava a pasta, ele estava ali ontem? Não conseguia lembrar. A luz parecia
diferente, mais fraca, mais amarela. Mais uma vez jogou os olhos por cima do
ombro esquerdo, então o direito. Riu um riso. Sentiu o coração bater forte. Abriu a pasta e pegou um pequeno frasco. Um, dois,
três comprimidos, mastigou e engoliu. Olhou o relógio, seis e treze. Algo
definitivamente estava errado.
Deu meia volta para a esquerda, caminhou alguns passos
reticentes. Ninguém. As luzes piscaram. Nada bom. Novamente a sensação, havia
alguém ali. Certamente alguém o observava, alguém estava perto, muito perto. A pasta
pesou, passou-a para a outra mão e percebeu que não fechara o zíper. Fechou. As
meias patinavam dentro dos sapatos, o colarinho estava encharcado. Cássio teve
um pequeno calafrio. Desta vez se virou completamente para trás, avistou um
vulto. Olhou-o diretamente apenas para vê-lo sumir diante dos olhos. Calma.
Mantenha a calma. Repetiu o mantra por alguns segundos. Olhou para o relógio,
seis e dezessete. Lá na frente, próximo de onde ficava sua sala pode ouvir alguns
sons. Lembrou de Ester, Fábio e Elíade, os três passaram por ele e seguiram
naquela direção. Nunca trocara qualquer palavra com qualquer um, mas a situação
lhe impelia. Deu alguns passos vagarosos, virou a esquerda, depois a direita,
já podia ver sua sala. Um, dois passos. Então tudo ficou escuro. No fim do
corredor uma luz por baixo da porta, podia ouvir passos pesados vindos das
escadas, ao lado do elevador. Suspirou nervosamente. Uma vez, duas, três, quatro...
não eram suspiros, sua respiração estava acelerada. Sentiu uma leve tontura.
Por que aquilo estava acontecendo? Ele só queria ir para casa, tomar um banho,
jantar, assistir dois capítulos de sua série favorita, ler quinze páginas do
livro da vez, arrumar as coisas para amanhã e dormir.
Ouviu uma porta abrir atrás de si, reconheceu o barulho como
sendo a da escada. Passos apressados iam na sua direção. Breve pânico. Andou em
direção ao final do corredor, para a porta com uma leve luz amarela, ouvia um burburinho
agora. Entrou.
Na mesa um bolo de aniversário, nas cadeiras vários pares de
olhos lhe olhavam. Entendeu tudo. Pediu desculpas e saiu. No corredor ainda
conseguiu ouvir “Poxa, que chato, como ele descobriu?”, “Que cara chato, quem
avisou da festa da Ester?”. Cássio sorriu um sorriso de alegria, um boicote,
uma rejeição. A vida caminhava normalmente. Girou nos calcanhares e virou à
direita, depois à esquerda e mais uma vez à esquerda. Viu um vulto. Sorriu um
sorriso de deboche e o ultrapassou. Ouviu dois estalos e sentiu uma breve dor,
primeiro nas costas, depois na nuca. Sentiu um líquido quente cobrir suas
roupas. A visão nublou, a respiração falhava. Sorriu um sorriso de ironia e
assim ficou, até Ester o encontrar. Ela não compartilhou o sorriso mais uma
vez.
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