Uma noite eterna se arrastava
enquanto da cama Alice olhava as estrelas imóveis na janela. Pensava sobre a
vida, sobre a tinta do teto, sobre o som distante do mundo lá fora, enquanto,
na parede oposta do abafado cômodo, Carlos a olhava com o carinho costumeiro.
Ele era o motivo dela manter a sanidade nestes últimos anos, sua razão de
viver, um ombro sempre disponível. Mesmo no escuro era possível ver seus traços
generosos, bem definidos. Alice o encarava há alguns minutos em silêncio,
admirando a pele bronzeada, os cabelos despenteados e jogados sobre o rosto, a
boca entreaberta. Queria ir até ele e abraça-lo, dizer e demonstrar o quanto o
amava. Foi quando sentiu em sua mão o anel dourado que anos atrás ganhara de
Augusto. Sentiu o estômago embrulhar, não era remorso, tão pouco medo, já não
sabia o que tanto lhe causava enjôos quando pensava no assunto. Carlos saiu das
sombras e sentou na cama, era como se ele a acariciasse com seu sorriso.
- Você está linda como
sempre. Precisa ser forte, as coisas vão melhorar, um dia ele irá entender. Se
a ama irá entender.
- Duvido muito, ele é louco, disse
que prefere que um de nós morra. Tenho medo de que seja eu...
Alice deseja sentir o abraço do
homem ao seu lado, mas ele levanta da cama e senta em um cadeira próxima sem
sequer toca-la. Ela nunca entendeu esta distância que ele mantinha. Sem beijos,
abraços, toques, nada, apenas olhares, elogios e insinuações. Uma lágrima caiu
sobre sua mão, não aceitava a situação.
- Por que não me abraça? Por que
não me toca? Sabe o que sinto, sabe o que quero. Então por que?
- Da mesma forma você sabe que não
podemos, que é impossível. - disse ele.
- Odeio essa situação, odeio tudo
isso...
- Por mais linda que fique
chorando, por favor, não chore, a vida é assim. Temos de nos virar da melhor
maneira possível, porém há coisas que não podem ser mudadas, precisamos aceitar
e seguir em frente.
Os olhos castanhos transbordavam,
apertava o peito tentando fazer a dor passar. Inútil. Ela mordeu o lábio e
lembrou quando viu Augusto pela primeira vez, um homem forte, alto, muito
bonito, extremamente educado e sedutor. Maldito mentiroso, descobriu. Virou o
rosto para Carlos. Os dois se olharam, se aproximaram e, então, ouviram passos
rápidos vindo do corredor logo antes da porta se abrir com um estrondo.
- Meu amor! - disse um homem
entrando pela porta, sem obter resposta. - Seu silêncio me dói, sabe disso, por
favor, fale comigo. Até quando irá continuar com isso, Alice? Trago flores, meu
amor, faço tudo para que seja feliz e não recebo nem uma palavra, acha justo?
- ...
- Que seja. Trouxe comida, vou
deixar aqui, está quente. Sabe, hoje tenho ótimas notícias, arquivaram seu
caso, não precisamos mais nos preocupar com nada, somos livres para viver,
amor.
Incrédula fixou os olhos vidrados
nele, as lágrimas caiam copiosamente.
- Não chore, meu anjo. É o que
sempre sonhamos, não?
Alice não sabia sequer o que
pensar, um turbilhão de vozes, imagens e sensações congestionava seus
pensamentos, sentiu que ia desmaiar. Abaixou a cabeça entre as pernas até a luz
voltar ao seu mundo.
- Está tudo bem, amor? A notícia
foi repentina eu sei, desculpe por não prepara-la. Farei assim, amanhã irei
trocar o quadro da janela! Que tal um dia ensolarado? Já deve estar cansada das
estrelas! - riu.
Ela não respondia, mal ouvia a voz
de Augusto, tudo parecia leve, fantasmagórico. Ele falou algo mais, entretanto
só viu a boca do homem se mexendo, não havia qualquer som, só um zumbido forte
e agudo. Quando o mundo parou de girar ele já estava na porta.
- ... certo? Não quero fazer isso, mas não é normal. Então pare de agir
como se houvesse alguém aqui com você, parece uma louca e isso não me agrada,
amor. Vou providenciar móveis novos, pintar as paredes, também quero pensar em
um modo para que não precise das correntes. Seus pais podem ter desistido de
você, mas eu não. Até amanhã. Tome o remédio, este porão as vezes é úmido.
E fechou a porta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário